“Utoya”, uma urgência de testemunho

Inicio este artigo explicitando que o filme sobre o qual escrevo, não é o que se encontra presente na plataforma Netflix (22 July), mas sim o filme de Erik Poppe, que se encontra a ser distribuído em Portugal pela Alambique. Na antestreia, o realizador deixou uma nota para que se explicitasse este mesmo “pormenor” a quem nos referisse o filme, de modo a não criar confusões. Tal deverá ser feito por serem filmes bastante distintos. A crítica que vos apresento é relativa a Utoya – July 22, de Erik Poppe – um filme com ênfase na verdade das vítimas do ataque extremista realizado na ilha norueguesa em 2011. Durante o texto não me dignarei a colocar o nome do responsável pelo ataque, dirigindo-me como “agressor”, a respeito da comunidade norueguesa.

Novamente escrevo uma crítica consciente e necessária, na esperança de vos levar às salas e criar discussão à volta de uma temática que acredito ser urgente. No passado dia 10 de novembro, tive o prazer de assistir à antestreia deste filme no El Corte Inglês. Para além da conversa com o realizador na conclusão da sessão, a mostra contou com um debate entre Dra. Graça Franco (Diretora de informação da Rádio Renascença) e David Dinis (Colunista do Jornal ECO), que nos incitou à criação de pensamento sobre a existência de práticas extremistas num país “livre”. O debate preparou a receção do filme que, através de uma linguagem simples e objetiva, nos conduz a uma grande verdade da temática – a existência das vítimas.


★★★★★


Utoya – July 22 reflete sobre os incidentes ocorridos na ilha norueguesa, a 22 de julho de 2011. Durante um campo de férias promovido pelo Arbeiderpartiet (partido trabalhista norueguês), ocorre um ataque extremista em que 77 crianças e adolescentes perdem a vida. O ataque foi realizado por um agressor, que vestido de polícia, se integrou na ilha que se encontrava protegida. No campo participavam cerca de 500 jovens e o ataque demorou 72 minutos aquando da chegada de ajuda do continente. Erik inconformado com a situação decide fazer o filme, de modo a contar a verdade pelo lado correto.

O filme abre com um primeiro ataque, recorrendo a found footage. Ocorrido em Oslo, este ato alarmou os pais daqueles que frequentavam o campo de férias. A secção em sequência do filme abre então com os filhos a tranquilizar os pais sobre estarem no sítio mais seguro da Noruega. Posteriormente, é-nos apresentado o grupo multicultural que compõe o acampamento, com ênfase na personagem de Kaja – uma adolescente de 18 anos. Ao longo do filme acompanhamos essa mesma rapariga nos métodos de fuga que as várias vítimas compuseram para assegurar a sua proteção física e mental – esconderijos, canções e piadas que contavam uns aos outros de modo a se abstraírem da realidade. O projeto cinematográfico não conta uma história específica de uma vítima, mas inspira-se em fragmentos de muitas que lhe chegaram por parte dos sobreviventes. Houve um interesse muito grande na criação deste filme por parte das vítimas, que foram a base de todo o desenvolvimento da narrativa.

A importância deste documento audiovisual prende-se com a forma de filmar escolhida por Poppe – o plano de sequência, sem cortes. Foi dada a atenção a esta forma de filmar por se achar ser a mais fidedigna para “contar o tempo”. Poppe fala-nos de que por vezes essa é uma das maiores dificuldades dos cineastas e que sentiu que neste projeto necessitou de fazer pesar o tempo em que aquelas pessoas se encontravam em fuga do agressor.

Porque este não é um filme que nos fala do agressor, mas das vítimas.  Não estamos a ver o ato com os olhos de quem o provoca, mas de crianças e adolescentes indefesos que não compreendem o que se passa. Sentimos o terror através do som dos tiros e do silêncio entre os mesmos. E através de tudo isso sentimos que estamos ali com eles, a partilhar daquela fuga constante para um local mais seguro. Porém, estamos numa ilha, que rodeada de água não nos incita a uma larga movimentação. Ao longo do percurso vamo-nos cruzando com cada vez mais vidas perdidas, tentativas de contacto ao mundo exterior. Mas nada parece chegar e, durante 72 minutos, o ataque segue o seu curso.

O agressor não é sequer mostrado de forma objetiva, o que é interessante por termos sempre a visão correta de quem foge. Há uma importância absoluta nesta forma de contar uma história, pois deste modo podemos sentir-nos também vítimas do ataque, o que nos “toca” de um modo mais pessoal com vista a provocar uma reflexão mais profunda sobre a temática apresentada.

A Noruega em 2011 era já considerada um dos países mais liberais e seguros do mundo, porém isso não foi razão suficiente para um ataque destes ter sido evitado. A segurança de um país foi posta em causa por um agressor da extrema-direita que, com a intenção de fazer o partido trabalhista refletir sobre as suas últimas propostas, conduziu um ataque a jovens entusiastas da atividade política. Não existe explicação absoluta para essa decisão senão um narcisismo absoluto e uma complexidade psicológica que não pretendo analisar, o que não nos convida a um estado de conforto no nosso próprio país. A crescente aceitação das frentes fascistas no mundo é uma constante à nossa existência e existe uma necessidade de diálogo e reflexão sobre estas temáticas – a segurança, a saúde mental e o extremismo.

O filme consciencializa e é para isto que a arte existe, por isso sejamos honestos nas nossas reflexões diárias e não nos acomodemos. Necessitamos de acordar os seres políticos que somos e democratizar as conversações sobre este tipo de casos que existem para que se possa pensar sobre como os evitar.

Deixo um especial agradecimento à Alambique pela possibilidade de ver este filme em sala na presença do realizador e convido-vos a ver, pensar e discutir. O filme estreia dia 15 de novembro no Cinema Ideal e nos cinemas UCI.


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