“Arrival” e a sua capacidade de manipular o tempo

“A linguagem é a base da civilização. É a cola que mantém as pessoas juntas e é a primeira arma a ser utilizada num conflito.”

Esta primeira frase é proferida por Ian Donnelly (interpretado por Jeremy Renner), um físico, para Lousie Banks (interpretada por Amy Adams), uma perita linguística, quando se conhecem pela primeira vez numa viagem de helicóptero comandada pelo Coronel Weber (Forest Whitaker) com a missão de fazer contacto com 12 objetos não identificados, dispersos em 12 locais diferentes do planeta Terra.

Realizado pelo canadiano Dennis Villeneuve (Blade Runner 2049, Sicario, Prisoners), o filme conta a história de Louise Banks. Segue-a numa viagem, quase que espiritual, para encontrar um significado para a sua existência. Mas no fim, acaba por ser uma viagem espiritual que revela, não só o destino dela, mas de toda a humanidade através da linguagem.

Arrival conta a sua história na maneira de uma linguagem ortográfica não linear. A ortografia é um conjunto de regras sobre a forma como uma linguagem é escrita, que inclui ortografia, ênfase e pontuação. O português e o inglês, por exemplo, são ortografias lineares, pois escrevemos e lemos da esquerda para a direita. A língua árabe, embora funcione no mecanismo contrário ao inglês e ao português, também pertence à categoria de ortografia linear. Estas três línguas têm regras claras sobre como e quando uma palavra ou frase começa e acaba.

Uma linguagem ortográfica não linear, pelo contrário, não tem guias claras de quando uma palavra ou frase começa e acaba. A linguagem dos Heptapods – os seres extraterrestres espalhados pelos 12 locais diferentes – em Arrival é também uma ortografia não-linear, que é escrita em nuvens circulares de fumo escuro produzida pelos seus tentáculos. A sua linguagem não possui um alfabeto. Estas criaturas extraterrestres comunicam com o chamado logograma, uma coleção de símbolos formada por círculos que podem representar uma palavra, uma frase ou um sentimento. A linguagem é de facto a palavra-chave deste filme, um substantivo muito poderoso com múltiplas funções. Este filme até junta as suas funções, uma vez que comunica connosco e, ao mesmo tempo, provoca modos de comunicação através do cinema e da sua linguagem.


ArrivalAdamsRenner
Amy AdamsJeremy Renner em Arrival.

Em Arrival, o tempo espectatorial funciona como uma linguagem ortográfica não linear pois só no final do filme é que conseguimos entender o verdadeiro significado do tempo e onde é que ele se encaixa no filme. A perda da concomitância dos tempos filmofânicos e espectatoriais não resulta de uma aceleração ou desaceleração brusca e repentina – até porque o filme é caracterizado pelo seu ritmo lento – mas sim pelo facto de a sua linha temporal não ser linear, o que leva o espectador para um sítio bem diferente do habitual, onde existe uma linha temporal linear, com passado, presente e futuro, por esta ordem.

Os factos espectatoriais tornam-se factos estéticos a partir do pressuposto de que se baseiam numa relação do espectador com o filme como experiência estética, individual, subjetiva. O espectador é um sujeito-espectador e não apenas uma estatística. A função do cinema é manipular a noção de estética do espectador, solicitando a sua sensibilidade, incitando ao seu prazer, tornando-se parceiro desta sensibilidade para ir de encontro à experiência estética subjetiva referida, e este filme é brilhante nesse sentido.

É por estas razões que Arrival funciona – não simplesmente pelo filme que é, mas pelo o que é e pelo o que faz. O filme vem cheio de profundidade e significado, mas o modo como ele nos atinge e nos move emocionalmente é o que o torna tão eficaz. É um filme compacto e elegante, com um ritmo lento, que revela o seu mistério de forma regular. O filme constrói o seu conflito e a sua tensão através da comunicação, dos debates, dos argumentos sobre o que pode significar a escrita dos heptapods. Esta é uma obra destinada a alimentar os nossos cérebros, e não um banquete para os nossos olhos.

Na minha experiência, notei que depois da visualização do filme, fiquei menos preocupado com a sua teologia e a sua filosofia, particularmente com a questão do determinismo e do livre-arbítrio. Em vez disso, saí mais preocupado com a questão de como posso ser melhor. Lamentei as vezes em que falhei em estar presente. Mas ao mesmo tempo, deu-me coragem para crescer. E por muito mórbido que pareça, a lembrança da realidade da morte – dada por Villeneuve no filme da mesma forma que foi dada pelos aliens a Louise – foi o que me inspirou.


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Amy Adams e Dennis Villeneuve em Arrival.

Não é apenas um grande filme de ficção científica, mas um grande filme no geral. Não se trata apenas de explorar a linguagem e a forma como ela afeta a Humanidade, mas como o tempo se pode moldar fora daquilo que conhecemos (passado, presente e futuro). Deixa-nos questões como: tomaria tal decisão se soubesse que consequências teria no futuro?




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